domingo, 5 de outubro de 2008

Viuvez Crônica

E sentia-se cada vez mais como se fosse viúva. Como se aquela solidão viesse de uma perda que só poderia ter sido causada por um mal tão definitivo quanto a morte - o mais definitivo dos males.

E a ausência, que a consumia diariamente, parecia ser irremediável. Ninguém pode apenas ir embora de uma maneira que a machucasse tanto senão sendo arrancado de seus braços por uma força maior do que a sua.

Abandonou a cor loura de seus cabelos. Aquela cor, a qual seu falecido tanto contemplava quando refletia os raios solares a cada manhã que acordavam sorrindo, apenas trazia lembranças dolorosas à pobre mulher. Então decidiu que a única saída era livrar-se do tom cheio de lembranças em suas madeixas. Já bastavam suas idéias para fazer com que sofresse.

Acordou então motivada a tornar-se ruiva. Tornou-se ruiva. Livrou-se dos cachos, livrou-se dos trinta e cinco centímetros de cabelo cuidadosamente cultivados para que seu amor se orgulhasse de toda a beleza que dedicava a ele, a apenas ele.

Agora não passava de uma mulher magra, de cabelos curtos, com a feição chorosa. Daquelas que dá até uma certa pena de olhar. Até vem um aperto no coração ao esbarrar com tanta frieza perambulando sem rumo pelas ruas de uma cidade que já transmite frieza por si só.

Mas era preciso, era assim que deveria ser. Não tinha cabimento manter uma imagem de algo que ela jamais conseguiria voltar a ser. Obviamente nada daquilo foi premeditado. Nunca fora uma mulher oportunista, e não cabia à sua personalidade fazer-se de vítima. Não era proposital todo aquele drama.

Mas, ainda assim, tinha plena consciência de que era vista como pobre coitada por todos. Os que já a conheciam antes do suposto luto tomar conta de seus dias não entendiam como chegara àquele ponto. Logo ela, uma mulher que sempre fora tão cheia de vida, se rendendo às circunstâncias. Fraquejou logo de cara. Em momentou algum tentou reerguer-se após o tombo causado por aquele homem que a abandonara.

Por mais que tente a todo momento encontrar notícias ou qualquer fato que satisfaça sua quase obesessiva curiosidade, o universo não colabora com a moça. Tudo que descobre são vagas informações, nada que seja relevante de fato ou alimente sua fome de ele.

Seu maior desejo era que, um dia, se surpreendesse com a garantia de que seu amor, de alguma maneira, ainda estivesse vivo. Vivo de fato, vivo como sempre viveu, do seu lado. Pronto para voltar a ser quem um dia já foi: alguém cujo amor àquela dama seria vitalício.

Sem muitas palavras, sem muita explicações, sem muitos porquês. Não haveria necessidade de sofrer mais nem um segundo, desde que o amor voltasse a reger sua vida.

E então, aí sim, retornaria para seu lar - lar esse que tornara-se nada mais que um monte de paredes e portas sem propósito algum desde que fora embora. Casas são construídas visando a proteção de seus moradores, e a última sensação que a possuía no momento era a segurança. Em hipótese alguma sentia-se protegida sob tais condições.

Mas, com seu amor de volta, sua casa voltaria a ser um lar. A proteção voltaria, a segurança também.

E aí sim, a moça teria suas louras madeixas novamente.
As cores teriam vida, e a vida teria cor.

Mas, enquanto o falecido não voltar, a viúva continuará ruiva...