Não sei como, mas eu queria.
Daquele jeito que eu sempre vou, com você me segurando pelo braço e eu olhando pra trás com aqueles olhinhos de quem vai se arrepender e sabe disso - mas ainda assim vai embora.
Eu queria ter coragem pra te contrariar. Não que eu nunca tivesse. Eu e você sabemos muito bem que eu sempre tive. Mas eu queria ter coragem de te contrariar agora - nos 48 do segundo tempo, com tudo prestes a desabar. Parece que nessas horas o meu medo bate, e bate como nunca bateu. Eu viro um bebezinho - não é que você sempre disse? - e perco todos aqueles impulsos que me fizeram te beijar lá no começo ou te estapear cá no final.
E eu sei que eu sempre vou sentir saudades e vou me arrepender por não ter te cutucado e dito pelo menos um tchauzinho daqueles bem tímidos. É que isso é a nossa cara. Um final triunfal pra uma história de filme - nós sempre fomos e sempre seremos um casal de filme, daqueles que nem se importam com quem está em volta ou com o que os outros vão pensar.
A gente merecia um bye-bye com alguém quase morrendo. Até porque, é a morte de uma era. A era do amor, a era da loucura e da liberdade. E foda-se tudo que eu contrariei e sempre disse que você sonhava demais - a gente tem vinte anos, vamos sonhar, porra.
E agora estou eu aqui, sem conseguir dormir. Ou ir embora. Ou sonhar. Ou viver. Não me arrependo de não ter feito nada - até porque eu fiz algo afinal. Meu arrependimento é sobre não saber o que fazer. Não só hoje, mas sempre.
Não sei se eu bebi demais, se eu gritei demais, se eu fiz escândalo demais. Mas esses somos nós. A gente se aproximou bebendo e se separou bebendo. Nossa cura foi nosso veneno.
E agora eu te perdi pra alguém que eu não sei nem se te quer. Quer dizer, eu não posso dizer nada sobre ninguém. Mas posso dizer sobre mim: e eu garanto que é muito difícil alguém te querer tanto assim. E se não foi pra ela que eu te perdi, como tanto dizem por aí, foi pro mundo.
Aquele mesmo que te trouxe, te levou de mim. Te levou e eu nem dei tchau. Não me despedi, não dei beijinho nem usei nome fofinho pra fazer carinho.
Não teve lágrima, não teve drama. Teve uma tentativa em vão e eu me deparando com o que eu mais temia - você e a sua indiferença. E é por isso que eu digo: eu queria ir embora.
Mas quem disse que eu consigo?