sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Meu bem

1 - A Origem

Deve ser realmente complicado para alguém descobrir que a sua maior fonte de felicidades, onde depositava confiança e fé no futuro, não passava de uma mentira. Uma dessas falácias, baseadas em uma lógica infundada, com o raciocínio obviamente quebrado para qualquer pensante que a examinasse atentamente, mas perfeitamente correta para quem o fizesse de maneira cega e tendenciosa.

Ainda mais quando se tratava de alguém como ela. Aparentemente frágil e destrutível, mas, na realidade, constituída de um egoísmo tão intenso que mal podia receber tal nome. Não tinha medo, não naquele momento. Não tinha o que perder, já havia perdido o que chamava de tudo. Tornara-se impenetrável.

Então, chegou àquele ponto. Era limitada à razão, tratava o prazer carnal como uma ciência exata, com fórmulas e proporções. Que dirá sentimentos...

Não se dava o trabalho de importar-se com o que poderia vir a causar ao próximo. Suas seqüelas eram inevitáveis, e considerava seu olhar de desdém a todos que não conhecia um aviso de sua impenetrabilidade. Não considerava seu comportamento uma crueldade, apenas se via como superior, algo tão inevitável, que, de uma maneira ou de outra, acabaria sendo demonstrado. Preferia, então, deixar claro espontaneamente.

Importava-se de fato com a imagem que causaria aos outros, logo agia com cautela ao demonstrar quem era. Logo após a aprovação no teste do olhar, não culpava-se mais ao ser manipuladora com terceiros. É a lei do mais forte, meu bem.

Assim, não admitia mais culpa alguma devido ao seu comportamento. Se agia de determinada forma, foi uma exigência do Universo para que sobrevivesse nesse mundo. Matar ou morrer, meu bem.

Sorriso no rosto, sempre. O que muitos desconheciam era a ironia por trás dos lábios abertos, dos dentes desenhados.

Aproximação feita, seu raciocínio frio e calculado já torna-se adrenalina por inteiro. A idéia de mais uma prova a ser submetida, mais um obstáculo a se superar, a fazia tremer de tanta ansiedade. Quando seu objetivo não demonstrava ser tão fácil assim de se alcançar, e notava que havia a necessidade de articulação e argumentação, seu coração disparava.

Fazia questão de utilizar as mesmas falácias que seu passado utilizara para torná-la assim. Satisfazia seu desejo por vingança e ainda alimentava sua vontade de criar nos outros as mesmas cicatrizes que alguém lhe causara tempos antes. Unia ainda a, mesmo que remota, possibilidade de tais cicatrizes causarem àqueles indivíduos o mesmo comportamento que as suas lhe causaram. Idealizava um mundo onde haveria uma série de seus semelhantes, cuidadosamente selecionados e aptos a agir com a mesma eficiência que ela.

Exigia tempo, inteligência e dedicação. Não era qualquer um que podia tomar aquele rumo.

continua...