domingo, 8 de fevereiro de 2009

Caixa Postal

Olha só, é a última vez que eu vou repetir. Eu sei, eu sei, eu já disse que não iria te ligar de novo pra falar disso, mas você não me dá outra escolha.

Dessa semana não passa. Não passa, tá bom? Até sexta quero que suas coisas já estejam fora de casa. Não aguento mais olhar pra sua calça jeans, ela me lembra o quão chato você é pra escolher qualquer roupa. Uma cueca que seja. Por DEUS, será que você nunca vai deixar de ser tão teimoso? Quando eu dizia que a roupa vestiu bem, não era pra te sacanear. Se você realmente estivesse parecendo um jeca com as calças pescando, eu diria. Eu não mentiria por algo tão babaca. Não naquela época. Mas de um tempo pra cá você bem que tem merecido.

Aliás, você só tem me dado dor de cabeça. Despesas sem fim só por sua causa. Aquele seu perfume maldito já me fez mandar estofar os dois sofás. Já tem quase um ano que você voltou praí e a sala permanece impregnada com aquele cheiro. Você não imagina o quão infernal é a convivência com esse odor. Parece que toda a ânsia de vômito que eu sentia voltou, não sei como eu pude me acostumar com você exalando aquilo o dia inteiro. A cama não teve jeito, no primeiro mês eu comprei outra. O quarto ficou até mais bonitinho, eu sempre falava em trocar, mas você muquirana do jeito que é, né...

Muquirana e mentiroso! Porra, sua mãe ainda continua falando mal de mim! Eu sabia que ainda era assunto nessa casa... Sua irmã me disse, deixou escapar outro dia lá no escritório que sempre que vocês jantam juntos ela dá graças a Deus que eu não estou mais ali pra atrapalhar a refeição com minha falta de modos. De quanto tempo ela vai precisar pra me esquecer? Não foi com ela que eu passei cinco anos e meio casada, não faço questão de suas críticas, por favor.

Não duvido nada de que você velho fique igualzinho. Só reclama, mas que inferno. Morro de vergonha só de lembrar daquele jantar que deu a confusão da reserva no japonês. Outro dia tomei coragem pra voltar lá e até que me trataram bem. Quer dizer, não sei, né? Podem ter cuspido na minha comida. Vai que me reconheceram e lembraram do escândalo que você fez...

Anteontem fui na casa da Carla e a Julinha desandou a perguntar de você. Mas que merda, não é possível que ela não te esqueça. Memória de criança é foda. Eu só falava "Ju, vamo tomar sorvete com a tia.", oferecia tudo que me vinha à cabeça e ela falando que sorvete napolitano lembrava aquela viagem em que a gente levou ela pra Búzios. Até que não foi ruim, de fato. O chopp ainda não tinha dado uma forma tão inegavelmente esférica à sua barriga e você ainda me deixava falar palavrão em paz.

Puta merda, vou ter que desligar. Tem blitz ali na frente, sempre dá merda quando eu falo no telefone dirigindo, é de lei. Suas coisas tão numa caixa do lado do móvel da tv, perto da porta. A bola de vôlei tá indo junto, não quero mais aquela merda também, não. Você me encheu tanto o saco, agora leva. Se passar de sexta eu deixo a caixa na portaria, não tô brincando não, hein? Não... melhor: depois de sexta vai tudo janela abaixo. Já vi que vou ter que me fazer de louca pra me livrar das suas coisas, só assim que funciona, pra variar.

E deixa a chave perto dos porta-retratos, cansei de você me enrolando pra me entregar essa merda já. Senão eu vou trocar as fechaduras todas.

Última vez que eu te ligo, hein? Não ligo mais nã...

Caralho, a polícia me parou. Mais 50 reais por sua causa, vou botar na sua conta. Tchau.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre temer e ser temido

Eu adoro meter medo nas pessoas.

Basicamente, é isso. Simples assim, sem muitos rodeios. Complicação nenhuma praticamente.

Em teoria, é algo meio óbvio de se gostar, mas não são todos que são providos da perspicácia e da sagacidade (estou num dia muito modesto, eu sei) necessárias para se perceber o quão proveitosa pode ser a experiência de ser temido.

O medo invariavelmente gera respeito, devido à ameaça de perda causada por terceiros. Ok, parece viagem, mas não é. Esclarecendo: aqueles que têm algo a perder tendem a ser mais medrosos do que os que já estão na merda. "Se você não tem nada, não tem nada a perder."

Pobres indivíduos, procurando algo para atormentar seus dias incessantemente. Pessoas assim têm algo que preencha suas vidas. Têm preocupações e têm prazeres. Mas, por mais que suas vidas pareçam completas, constantemente procuram uma forma de submeterem-se a algo novo. Uma doutrina, uma religião, uma pessoa. E é aí que eu entro.

A parte difícil fica por conta da prática do negócio. Geralmente, a mais frequente das situações é uma cena de ciúmes. Eles sempre aparecem na primeira oportunidade que têm: insegurança, desconfiança, remorso, consciência pesada, falta do que fazer... tudo é motivo pra deixar um babaca enciumado. O que me resta a fazer é dar um real motivo para que se preocupem. Entenda, se não fosse eu, seria algum outro indivíduo se divertindo às custas do medo alheio - intencionalmente ou não.

Mas isso acontece o tempo inteiro. O ciúme é apenas um exemplo dentro das infinitas situações que são criadas nos mais variados tipos de relacionamento. Filhos temem pais, crentes temem Deus, atuais temem exs (isso existe?), fracos temem fortes.

Não digo que não tenho medos, hipocrisia não me agrada. Mas faço questão de escolher a dedo aquilo que vai me tirar o sono.

E você, do que tem medo?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Silêncio Corrosivo

Havia só umas duas semanas desde que começamos a sair. Não éramos íntimos até então, não tínhamos posto apelidinhos esdrúxulos um no outro, nem fazíamos piadinhas sobre como o jeito eu sentava em seu colo fazia parecer que eu era paraplégica.

Basicamente, éramos estranhos que se beijavam ocasionalmente.

Sempre fui de falar, de rir, engraçadinha - até meio babaca depois de uns goles. Ele, tímido. E confesso que talvez eu o acanhasse mais ainda. Acidentalmente, claro. Não tinha a intenção de fazer com que ele falasse menos do que já falava (que era nada).

Obviamente fui eu quem o convidou para sair. Obviamente fomos ao shopping. Obviamente íamos ao cinema.

Na verdade, minha intenção inicial foi chamá-lo para assistir a um jogo de futebol de nosses times. Parecia imperdível a oportunidade de torcer para o time que adotei do meu ex, enquanto meu possível futuro torcia para o time rival na cadeira ao lado. Mas acontece que eu não sou uma pessoa lá de muita sorte, e o bar resolveu que era melhor exibir o jogo do Botafogo no lugar do jogo do Vasco. Ok... Beleza então. Cinema, né?

Mas, como não contávamos com tal infortúnio e a minha sorte fazia questão de cagar tudo de vez, tivemos que esperar quase uma hora para a próxima sessão do filme que eu decidira escolher. Não, eu não poderia abrir mão de tal escolha. Com ele, ser feminista era peça fundamental na graça da relação. Imposição de escolhas: satisfação garantida ou sua solteirice de volta.

A situação começou a se agravar quando percebi o quão torturante a próxima hora seria. Apenas silêncio. Um silêncio ácido, que corroía minhas veias a cada segundo que se passava sem palavras. Não tenho necessidade de permanecer falando o tempo inteiro. Consigo conviver em silêncio com uma série de pessoas, e às vezes deixo até de falar sozinha. Mas aquele silêncio... aquele silêncio não.

A cada cinco minutos sem proferir uma palara, o indivíduo parecia que se obrigava a soltar um palavrão. UM PALAVRÃO! Quem é que se sente confortável ao ouvir um "Caralho..." interrompendo subitamente seus pensamentos? Pois é. Depois de meia hora dá vontade de se matar. Ou de matar o infeliz, mais fácil.

Então eu comecei:

- Porque você fica quieto?
- Eu não tenho o que falar, só isso.
- Mas se você não tem o que falar, por que fica aí xingando? Não quisesse vir, não vinha, ué.
- Não é isso... é só... mania.
- Mania? Não é mania. Você tá incomodado.
- Eu não tô incomodado.
- Tá sim. Quando a gente se sente plenamente confortável ao lado de alguém, a gente fica em silêncio sem se incomodar. Não fica xingando aí de graça.
- Pffff... Tá então.

5 minutos depois:

- Pooooooorra.
- ???
- Fala alguma coisa aí.
- Ué, eu tô bem. Quer conversar, inventa um assunto aí.
- Ah, não sei, que merda. Pensa aí você, sei lá.
- Eu já disse que tô bem. Quem quer ficar falando é você, você que puxe assunto.
- Caralho...
- Já deu a hora do cinema?

Felizmente, me deu uma luz e eu resolvi comprar besteiras pra levar e comer no cinema. Saímos daquele ping-pong escroto e o assunto seguiu.

Já a nossa relação...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Deixa pra lá

Odeio essa sensação de falta de rumo que toma conta de mim às vezes. Não é algo que ocorra com tanta frequência a ponto de me enlouquecer, ou seja tão forte a ponto de me desnortear completamente, mas é chato. E ninguém gosta de algo chato. Simples assim. Funciona como uma falta de resposta. Mas eu sequer tenho a pergunta, o que fazer...?

É chato não ter um plano para o que se segue, é chato ter que lidar com a falta de controle sobre a própria vida, ainda mais sendo alguém tão neuroticamente controlador como eu. Eu vivo mandando nas coisas ao meu redor, por que não mandar no meu destino?

Não saber o que escrever, não saber o que fazer, ou qual decisão tomar. Não saber pra onde ir, não saber o que estudar. Não saber se devo trabalhar. A sensação de ter o poder de tomar uma decisão em minhas mãos me agrada, afaga meu ego e me embala docemente. Mas o fato de eu ser quem sou, uma pobre criatura ansiosa, transforma toda essa liberdade em um bicho de mil cabeças que eu nunca sei se estou realmente pronta para enfrentar.

Tudo isso me enlouquece. A inércia chega a doer, provocar aquela pontada que arde no peito quando estou prestes a começar algo. Detesto começar projetos, fases, textos, trabalhos. Qualquer coisa que exija um esforço inicial me parece uma montanha a escalar.

Pretendia escrever mais, muito mais... Pessoas chatas ao meu redor, projetos que pegam o embalo depois do sacrifício que é começá-los, planos que se desfazem ao longo de suas respectivas execuções. Mas minha mãe entrou no quarto falando algo sobre CDs velhos e passou um carro vendendo uvas fresquinhas ("uma caixa é três real, duas caixa é cinco real") e... deixa pra lá.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Galochas no Verão

E lá vou eu e minhas galochas
Descobrir mundos mundo afora
Outono, inverno, primavera, verão
Não importa o clima, não importa a estação

Tomo conta de lares, de céus e de mares
Às vezes destruo, quase um furacão
Não tenho angústias, receios, temores
Levo minha ousadia, sem nenhum tostão

Coragem eu já tenho - o que me falta é o impulso
Um motivo pra correr, olhos fechados, pés no chão
De itinerário não preciso: meu caminho nunca é curto
Eu me faço companhia, de galochas no verão.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Meu bem

1 - A Origem

Deve ser realmente complicado para alguém descobrir que a sua maior fonte de felicidades, onde depositava confiança e fé no futuro, não passava de uma mentira. Uma dessas falácias, baseadas em uma lógica infundada, com o raciocínio obviamente quebrado para qualquer pensante que a examinasse atentamente, mas perfeitamente correta para quem o fizesse de maneira cega e tendenciosa.

Ainda mais quando se tratava de alguém como ela. Aparentemente frágil e destrutível, mas, na realidade, constituída de um egoísmo tão intenso que mal podia receber tal nome. Não tinha medo, não naquele momento. Não tinha o que perder, já havia perdido o que chamava de tudo. Tornara-se impenetrável.

Então, chegou àquele ponto. Era limitada à razão, tratava o prazer carnal como uma ciência exata, com fórmulas e proporções. Que dirá sentimentos...

Não se dava o trabalho de importar-se com o que poderia vir a causar ao próximo. Suas seqüelas eram inevitáveis, e considerava seu olhar de desdém a todos que não conhecia um aviso de sua impenetrabilidade. Não considerava seu comportamento uma crueldade, apenas se via como superior, algo tão inevitável, que, de uma maneira ou de outra, acabaria sendo demonstrado. Preferia, então, deixar claro espontaneamente.

Importava-se de fato com a imagem que causaria aos outros, logo agia com cautela ao demonstrar quem era. Logo após a aprovação no teste do olhar, não culpava-se mais ao ser manipuladora com terceiros. É a lei do mais forte, meu bem.

Assim, não admitia mais culpa alguma devido ao seu comportamento. Se agia de determinada forma, foi uma exigência do Universo para que sobrevivesse nesse mundo. Matar ou morrer, meu bem.

Sorriso no rosto, sempre. O que muitos desconheciam era a ironia por trás dos lábios abertos, dos dentes desenhados.

Aproximação feita, seu raciocínio frio e calculado já torna-se adrenalina por inteiro. A idéia de mais uma prova a ser submetida, mais um obstáculo a se superar, a fazia tremer de tanta ansiedade. Quando seu objetivo não demonstrava ser tão fácil assim de se alcançar, e notava que havia a necessidade de articulação e argumentação, seu coração disparava.

Fazia questão de utilizar as mesmas falácias que seu passado utilizara para torná-la assim. Satisfazia seu desejo por vingança e ainda alimentava sua vontade de criar nos outros as mesmas cicatrizes que alguém lhe causara tempos antes. Unia ainda a, mesmo que remota, possibilidade de tais cicatrizes causarem àqueles indivíduos o mesmo comportamento que as suas lhe causaram. Idealizava um mundo onde haveria uma série de seus semelhantes, cuidadosamente selecionados e aptos a agir com a mesma eficiência que ela.

Exigia tempo, inteligência e dedicação. Não era qualquer um que podia tomar aquele rumo.

continua...

domingo, 5 de outubro de 2008

Viuvez Crônica

E sentia-se cada vez mais como se fosse viúva. Como se aquela solidão viesse de uma perda que só poderia ter sido causada por um mal tão definitivo quanto a morte - o mais definitivo dos males.

E a ausência, que a consumia diariamente, parecia ser irremediável. Ninguém pode apenas ir embora de uma maneira que a machucasse tanto senão sendo arrancado de seus braços por uma força maior do que a sua.

Abandonou a cor loura de seus cabelos. Aquela cor, a qual seu falecido tanto contemplava quando refletia os raios solares a cada manhã que acordavam sorrindo, apenas trazia lembranças dolorosas à pobre mulher. Então decidiu que a única saída era livrar-se do tom cheio de lembranças em suas madeixas. Já bastavam suas idéias para fazer com que sofresse.

Acordou então motivada a tornar-se ruiva. Tornou-se ruiva. Livrou-se dos cachos, livrou-se dos trinta e cinco centímetros de cabelo cuidadosamente cultivados para que seu amor se orgulhasse de toda a beleza que dedicava a ele, a apenas ele.

Agora não passava de uma mulher magra, de cabelos curtos, com a feição chorosa. Daquelas que dá até uma certa pena de olhar. Até vem um aperto no coração ao esbarrar com tanta frieza perambulando sem rumo pelas ruas de uma cidade que já transmite frieza por si só.

Mas era preciso, era assim que deveria ser. Não tinha cabimento manter uma imagem de algo que ela jamais conseguiria voltar a ser. Obviamente nada daquilo foi premeditado. Nunca fora uma mulher oportunista, e não cabia à sua personalidade fazer-se de vítima. Não era proposital todo aquele drama.

Mas, ainda assim, tinha plena consciência de que era vista como pobre coitada por todos. Os que já a conheciam antes do suposto luto tomar conta de seus dias não entendiam como chegara àquele ponto. Logo ela, uma mulher que sempre fora tão cheia de vida, se rendendo às circunstâncias. Fraquejou logo de cara. Em momentou algum tentou reerguer-se após o tombo causado por aquele homem que a abandonara.

Por mais que tente a todo momento encontrar notícias ou qualquer fato que satisfaça sua quase obesessiva curiosidade, o universo não colabora com a moça. Tudo que descobre são vagas informações, nada que seja relevante de fato ou alimente sua fome de ele.

Seu maior desejo era que, um dia, se surpreendesse com a garantia de que seu amor, de alguma maneira, ainda estivesse vivo. Vivo de fato, vivo como sempre viveu, do seu lado. Pronto para voltar a ser quem um dia já foi: alguém cujo amor àquela dama seria vitalício.

Sem muitas palavras, sem muita explicações, sem muitos porquês. Não haveria necessidade de sofrer mais nem um segundo, desde que o amor voltasse a reger sua vida.

E então, aí sim, retornaria para seu lar - lar esse que tornara-se nada mais que um monte de paredes e portas sem propósito algum desde que fora embora. Casas são construídas visando a proteção de seus moradores, e a última sensação que a possuía no momento era a segurança. Em hipótese alguma sentia-se protegida sob tais condições.

Mas, com seu amor de volta, sua casa voltaria a ser um lar. A proteção voltaria, a segurança também.

E aí sim, a moça teria suas louras madeixas novamente.
As cores teriam vida, e a vida teria cor.

Mas, enquanto o falecido não voltar, a viúva continuará ruiva...