Ali, ó. Minha filha é aquela ali, a mais pra direita, do cabelo mais comprido. Eu vivo dizendo pra ela cortar esse cabelo, que essa ponta tá um horror, mas ela não corta. Tá tudo quebrado, precisando de uma hidratação, tá vendo não? Horrível... Ah, pois é, minha filha, com certeza. Não me escuta de jeito nenhum, só escuta aquelas amiguinhas dela. Já falei pra ela tomar jeito, que dinheiro não dá em árvore, que a vida não é só ficar indo pra festinha e ficar no telefone a tarde inteira, mas cadê que me escuta? A mãe é sempre a chata, né...
Ó, tá ela vindo ali, ó... Oooi, filha, mamãe tava falando agora de você com a mãe do Paulinho. Ih, filha, que vergonha, que nada, mamãe só fala bem, você sabe. Menina é engraçado, né? Reclama de tudo, tudo é vergonha, tudo é mico, ainda mais nessa fase... Dá um trabalho, Nossa Senhora!
Ah, mas estudar ela estuda, sempre foi estudiosa. O pai fica cheio do orgulho, dá presente, uma coisa! Ô Jesus, o seu não gosta de estudar não? Ahhh... Mas isso tem que acostumar desde cedo, né? Estudo é costume, tem que ter horário de estudo desde criança pra poder se habituar. Essa aqui desde pequena faz dever, estuda pra prova. Precisa ver, menina! Adora matemática, né filha? Olha, meu marido é doido pra ela fazer engenharia, fica todo orgulhoso só de pensar na filha seguir a carreira dele. Pois é, né, por causa da empresa, mas ela agora cismou que quer ser professora. Não pode nem falar perto dele que já ele já fecha a cara.
Ah, filha, quê que tem? Deixa mamãe falar... Eu tô conversando, você não conversa com as suas amigas? Vai ali na quadra, vai. Paulinho tá jogando futebol com os outros meninos, vai lá assistir. Agora deu pra isso, vê se pode. Não pode nem tocar no assunto dessa história da engenharia que ela já fica toda sentida...
E teu marido, faz o que? Aaaaaaaaaaaaaah, menina! Não acredito, tá separando? Mas por quê? Ah, mas ele era um homem tão educado, tratava todo mundo tão bem... No elevador, sempre cumprimentava a gente, dava bom dia, boa tarde, boa noite, mexia com o Cláudio... Outro dia até falei, "Ô bem, vê com ele de tomar uma cervejinha". Ah, mas é aquela coisa, né? Quando não tá dando mais, tem que separar, mesmo... Você vê, a Márcia, do 502, ficou nove anos casada com aquele ex-marido dela lá, o meio maluquinho, sabe quem é? Pois é, mas, menina, só brigavam, era uma coisa horrível! Dava pra ouvir no corredor, às vezes até de dentro de casa a gente escutava a brigalhada dos dois. Mas é... um absurdo, menina, não dá pra ficar empurrando casamento condenado com a barriga não.
Ahhh, mas já vai subir? Pois é, daqui a pouco eu também vou, vai dar a hora de fazer a janta mesmo. Tá bom então, vê se aparece, viu? Passa lá em casa pra gente tomar um cafezinho qualquer dia desses à tarde. Dá um beijo no Paulinho.
5 minutos depois.
Ihhhhhhh, Dona Lúcia, a senhora não sabe quem separou!