Pois bem, alguma hora eu teria de enfrentar tal fato. A questão é, eu não me apaixono. Eu me apego. E não às pessoas. Aos momentos, às cores, à velocidade com a qual o tempo voa quando tudo corre exatamente da maneira como a qual eu planejei. Ou melhor ainda.
É incrível quando me pego instantaneamente apaixonada - vamos fingir que eu me levo a sério - por alguém. O chão se abre. Metáforas a parte, me sinto eufórica. Mal falo, e tudo que sinto é vontade de gritar. É como se o indivíduo (ele ou ela, não tenho critérios de seleção para determinar por quem me encanto, apenas soa pretensioso demais para mim) automaticamente tornasse-se uma inspiração para mim. Como se, nele, a plenitude se encontrasse. Mas não uma plenitude serena e entediante. A paixão que subitamente se instala é maior que um amor ordinário de romances antigos. É imprevisível, e a total falta de controle sobre a mesma faz com que eu sinta uma vertigem inebriante.
Mas é óbvio que é um amor corriqueiro. Uma paixão volátil, que se desfaz como dente-de-leão ao sopro suave e repentino. Mas sem se desfazer de sua beleza. Jamais. Não importa quem seja. O quão irreal ou surreal é. É amor, um amor de graça. Sincero e honesto, disposto a dar o seu melhor a fim de obter a menor oportunidade que seja de realizar-se.
Mas, então, ao tornar-se real, a exposição à insensibilidade da rotina pode corroê-lo. É ela quem assopra o dente-de-leão. Sua fragilidade não é à prova dos obstáculos aos quais somos expostos constantemente. E é cruel ver uma raridade desfazer-se assim. Perder toda a sua beleza para a feiúra quase desfigurada do cotidiano.
O encanto, às vezes, só é mantido enquanto sonho. É onde fica guardada toda a graça das coisas efêmeras. É um risco o qual temos de correr para saber se vale a pena ou não tudo aquilo com o que sonhamos. Realizar um sonho e obter sucesso sem frustrar-se não é tão simples quanto parece. Na maioria das vezes, não conhecemos suficientemente bem nossos sonhos. Por isso é tão arriscado realizá-los. Que dirá então vivê-los mais de uma vez.
É aí que vive o risco de expor-nos à realidade. É uma prova de amor a um momento vivido arriscar uma boa lembrança, podendo arruiná-la definitavamente, em prol do novo sonho de poder revivê-la. Por isso que frequentemente opto por abrir mão de prolongar o improlongável.
Não só por isso, confesso. Quase sempre me falta coragem de encarar tudo que um possível amor propõe: constrangimentos, dores, dúvidas, inseguranças. Prefiro fazê-lo eu mesma antes que a vida cuide de sacrificar aquilo em que depositei minhas esperanças e eu seja obrigada a assistir à execução algo que eu mesma construí.
É assim que justifico minha forma de amar. Não é que eu substitua impiedosamente meu objeto de amor, eu apenas adianto um trabalho que a própria vida faria por mim. De uma forma muito menos dolorosa e cruel, obviamente.
E também sem deixar de recordar eternamente da beleza de cada dente-de-leão que assoprei.